Sumiço e 52
Então… esse negócio de bloqueio de escritor é realmente complicado…
Quando comecei essa newsletter juro que pretendia escrever com uma frequência no mínimo constante e, após o meu texto sobre “Deadpool & Wolverine” ter saído de maneira tão rápida, apesar de trabalhosa, quando saiu, achei que estava com um bom começo em mãos. Mas aí, passaram-se semanas, depois meses e nada. Comecei vários textos sobre diversos assuntos, tentando replicar o que havia feito anteriormente, mas todos me frustraram de uma maneira ou de outra e acabaram jogados na lixeira1.
Então, no dia anterior ao da escrita deste texto conversei com meu amigo Bruno2 e ele me deu um bom conselho para manter alguma frequência nessa newsletter. Então levando isso em conta decidi que o melhor a fazer é voltar para as minhas origens de escritor: escrevendo críticas. Contudo ao em vez de fazer como antigamente, falando de filmes, jogos e séries que acabaram de sair, decidi que, por enquanto, vou tentar escrever pequenas recomendações de obras que eu estou consumindo, para, pelo menos, ter alguma coisa para publicar semanalmente. Então, sem mais delongas, vamos a primeira:
Bom, desde, acho, Novembro do ano passado até agora estou em uma pequena maratona de leitura da Dc, começando na época pós-crise com o Superman do John Byrne, a Mulher-Maravilha de George Pérez e “Batman: Ano Um” e, se tudo der certo, indo até a recente “Crise Sombria”3. Claro que eu não estou passando por tudo que a Editora das Lendas lançou nesse período de tempo, afinal seria uma tarefa quase impossível, mas estou passando por várias das minhas histórias favoritas (e também algumas que não havia lido antes) de forma a ter uma noção mínima de cronologia de cada época. Recentemente cheguei, mais ou menos, na metade do caminho com o crossover “Crise Infinita” e, após passar por algumas novas versões das origens dos personagens4, voltei ao “presente” com a mega-saga semanal “52” e ela que eu vim recomendar hoje.
Para quem não sabe, após o fim de “Crise Infinita” a trindade principal da Dc desapareceu por um ano: Bruce Wayne foi refazer a mesma viagem pelo mundo que fizera anos antes para poder recriar o Batman, a Mulher-Maravilha fez algo semelhante para descobrir quem deveria ser Diana Prince e o Superman perdeu seus poderes ao atravessar o Sol vermelho de Krypton na batalha final da Crise e precisou desse ano para recarregar. Cada um dos títulos individuais pulou esse ano e tratou de algum elemento do que aconteceu durante esse período5 , contudo para tratar do plano geral do que aconteceu ao universo Dc sem seus maiores heróis, foi criada “52” uma minissérie criada em 52 edições semanais, cada uma representando uma semana dentro do universo, escrita pelos grandes astros Geoff Johns, Greg Rucka, Grant Morrison e Mark Waid.
O que faz de “52” uma série tão interessante (e, francamente viciante) de se ler são duas coisas: seu formato e seu elenco de personagens. Semelhante a uma novela, a maxissérie trabalha com diversos núcleos que tem suas próprias linhas narrativas, mas que eventualmente se cruzam. Essa, ao meu ver, foi uma sacada genial, visto que é algo que nunca antes havia acontecido nos quadrinhos da época6, seja nas séries mensais (que focam, normalmente, em um protagonista específico ou em uma equipe) ou nas grandes sagas (que normalmente focam mais na história e deixam os personagens para as edições tie-ins).
Isso, na verdade, é tanto uma força quanto uma fraqueza, pois enquanto um núcleo bom te mantém preso querendo ver o que diabos vai acontecer a seguir, um núcleo ruim pode se tornar bastante arrastado, mas claro, bom e e ruim variam de leitor para leitor, eu, por exemplo, só tive mais má vontade com um núcleo específico, mas falemos dele depois. Infelizmente, outra fraqueza no formato é que, como são vários, as vezes acontece de um ou outro sumirem por várias edições seja por depender de algo acontecer em outro núcleo ou seja por algum acontecimento importante, que demanda mais tempo para ser desenvolvido, mas não ter nada haver com dito núcleo, ter acontecido. Contudo, apesar desses problemas, acho que o quarteto de roteiristas conseguiu levar esse tipo de narrativa ao máximo que a mídia permitia, de forma que tentativas seguintes de séries mensais pela Dc não deram tão certo…7
Agora indo para o segundo ponto levantado, os personagens, acho que aqui vale mais um elogio para a escolha do elenco da minissérie. Mãos menos capazes, ao retratar um mundo onde a trindade “tirou um sabático”, poderiam decidir focar no que Superman, Batman e Mulher-Maravilha estavam fazendo nesse meio tempo, o quê não seria ruim, mas, sinceramente, não acho que teria pano para manga para 52 edições. Outras mão mais conservadoras talvez escolhessem seguir mostrando o que outros grandes heróis, como membros da Liga ou dos Novos Titãs, estariam fazendo para preencher esse vácuo, o quê até seria legal, mas o quê de tão inovador poderia ser ditos sobre esses heróis que já não foi dito? Não, o quê Rucka, Morrison, Johns e Waid fazem é algo quase sem precedentes: eles mostram esse ano da perspectiva de um bando de personagens de classe B, C e até, ouso dizer, D.
Dos tão falados núcleos, são 6, encabeçados por Adão Negro8; Renne Montoya e Questão; Homem-Animal, Estelar e Adam Strange; Aço; Professor Will Magnus; Homem-Elástico; e Gladiador Dourado, com, como eu disse, qualidades variadas dependendo do que o leitor prefere ler. Contudo, também vale um elogio para a forma como os quatro roteiristas conseguem juntar tantos gêneros de histórias diferentes (detetive, ficção científica, tragédia grega, etc) de forma a deixar cada núcleo com uma cara diferente, mas também não diferentes a ponto de não parecerem fazer parte da mesma história.
Indo para um comentário, sem spoilers, dos núcleos em si, para mim o melhor de todos é de longe o do Adão Negro, que pega esse personagem, que, sendo sincero, era um tanto limitado, e coloca várias camadas nele, desafiando suas noções de mundo ao colocá-lo no papel que sempre fora de seu algoz, o Capitão Marvel, como chefe de uma família Marvel (formada pelos irmãos estreantes Ísis e Osíris). Ver essa jornada de um homem que há muito escolheu a violência percebendo que há outro caminho, se tornou uma grande parte do que tornou “52” uma história especial: exatamente por ser uma mini que não tem medo de desafiar quem são seus personagens para mostrar quem eles podem ser. Apesar disso, vale ressaltar que o final da saga, infelizmente, acaba por colocar o Adão numa posição não tão distante de onde ele estava no início (afinal, quadrinhos, querendo ou não, são uma mídia cíclica), mas independente de onde ele termina, o ano mostrado marcou o personagem para sempre, tornando “52” um dos maiores momentos da história de Adão.
Continuando em relação a essa mudança em seus protagonistas, temos a saga de Renne Montoya que pega uma detetive destroçada por acontecimentos recentes9 e a coloca numa jornada para se tornar parte de um grande legado de heroísmo e mistério. De longe a segunda melhor parte da história, aqui temos vários elementos que poderiam parecer um tanto quanto demais, mas que funcionam muito bem juntos: uma investigação sobre um novo inimigo que surge devido ao desaparecimento do Batman e do Superman, o desenvolvimento de uma amizade improvável entre um vigilante viciado em conspirações e uma ex-detetive alcóolatra e, por fim, o próprio desenvolvimento dessa detetive. Tudo isso é unido de forma a dar espaço para que cada um dos elementos possa respirar e ter seu espaço para se desenvolver. Também se destaca o clima de história noir, que eu achei sensacional (com direito até as clássicas narrações, não presentes nos outros núcleos).
Já em relação ao resto, temos alguns destaques, mas nada como esses dois. A história de Aço, mostrando Lex Luthor, após o sumiço do Superman, criando um projeto que dá super poderes a pessoas comuns é bastante interessante e mostra um dos momentos mais marcantes de Luthor nos quadrinhos, mas infelizmente não tem muitas surpresas, sendo bem óbvio, desde o início, seu final, principalmente a conclusão de seu ponto principal, a relação complicada entre John Henry Irons (o Aço) com sua sobrinha, Natasha, que é bastante clichê.
A história do Homem-Borracha, por outro lado, começa e termina muito bem, contudo tem um meio um tanto arrastado. Apesar do meu elogio, o final, para uma história de detetive, é um tanto súbito, devido a falta de pistas no decorrer da trama. Além disso, ela parece mais uma continuação da saga “Crise de Identidade”10 do que propriamente parte de “52”, mas, ainda assim, apresenta um estudo bastante interessante do personagem de Ralph Dibny, o dito Homem-Borracha.
Já a história do Gladiador Dourado começa bastante interessante, até porque eu acho as histórias dele bem no meu estilo, mas depois desaparece completamente, após dado acontecimento, e se conclui, como conclusão da própria saga, de uma forma que diz mais sobre o que se tratava “52” do que sobre o que se tratava essa história por si só. Por fim, as histórias do núcleo do espaço (Adam Strange, Estelar e Homem-Animal) e do Professor Will Magnus, para mim, foram meio desnecessárias, mas por motivos opostos. A parte do núcleo estelar simplesmente não conversa com nada do quadro geral ficando completamente aparte e a de Magnus parece que só serve de complemento para a trama do Adão Negro, como o ponto de vista dos vilões, contudo, assim como ocorre com Ralph Dibny, aqui temos uma exploração interessante da personalidade do criador dos Homens-Metálicos.
Saindo do roteiro, a arte é um caso interessante. Pelo tamanho massivo e frequência de lançamento é de se esperar que diferentes artistas cuidem de cada edição, o que ocorre, claro, mas o trabalho do grande Keith Giffen em definir os layouts de cada edição fez com que, mesmo com essa quantidade enorme de talentos, a série mantivesse uma coerência artística, o que, ao meu ver é bastante louvável, até porque é uma chatice quando uma mini troca de artista no meio11.
“52” talvez não seja a melhor porta de entrada para o universo Dc, já que ela exige do leitor certo conhecimento sobre alguns dos personagens mais obscuros da Editora das Lendas, mas é uma excelente história que faz o leitor se apaixonar por esses heróis classe C, com uma trama que os explora de tal maneira a transformá-los em personagens praticamente na mesma classe do Flash ou do Lanterna Verde. Se o meu texto lhe deixou no mínimo curioso(a), digo que não vai se arrepender em dar uma chance para essa série.
Só para deixar tudo organizado, a saga foi publicada aqui no Brasil em uma mini de 13 edições entre 2007 e 2008, então teria que ser procurada em sebos. Além disso, ela está disponível em formato digital em inglês no Kindle e no Google Play para comprar e nos serviços do Kindle Unlimited, Global Comix e Dc Universe Infinite.
O texto sobre minha recente maratona por todas as séries do DCAU não ter ficado como eu queria, me decepcionou fortemente, inclusive.
Da newsletter “Caindo de Cara”. Se não checaram ainda, vão lá!
Que por sinal, eu nunca li, mas estou com uma boa expectativa.
Isso porque, para quem não sabe, ao final de “Crise Infinita” alguns fatos históricos até o momento da Dc são alterados. Algumas dessas mudanças foram acompanhadas por novas versões das origens, como a excelente “Superman: Origem Secreta”, que eu deixei para serem lidas nesse momento.
Por exemplo, o quadrinho que estou lendo agora “A Vingança dos Lanternas Verdes” mostra que Hal Jordan passou três desses doze meses como prisioneiro de guerra na Chechênia, após o caça que pilotava ser abatido. Lembrando que, quando pilota, ele tende a não utilizar seu anel energético.
Gotham Central, do próprio Greg Rucka, até fez algo um tanto próximo, trabalhando o turno do dia e da noite do GCPD de forma separada, mas nada nesse nível. Inclusive, Gotham Central também é incrível, então fica a dica ;)
Sim, estou falando de vocês “Contagem Regressiva” e “Fim dos Tempos”…
Talvez você não considere ele um personagem B, afinal ele teve até seu próprio longa, mas, sinceramente, muita da caracterização e popularidade que o levou a isso veio dessa saga e de sua participação anterior na Sociedade da Justiça. Antes disso, ele não passava de um dos vilões do Shazam. Claro que um dos maiores, junto do Silvana e do Sr. Cérebro, mas ainda assim, o vilão de um personagem B (na época) não é lá grandes coisas…
Ao fim da série (SPOILER) em que era a protagonista, GCPD, o parceiro de Montoya, Crispus Allen, foi brutalmente assassinado e seu assassino, o corrupto Jim Corrigan, se viu livre das acusações. Renee até tenta matar Corrigan, mas não consegue e decide sair do GCPD.
Onde a esposa dele, Sue Dibny, é assassinada, após um elemento triste de seu passado ser revelado (que eu não vou dizer aqui por ser meio pesado.
Estou falando com você “Vingadores vs X-Men” e seus três artistas (apesar da primeira mudança ter feito sentido narrativo…)





